Top Autores
KABRAL ARAUJOSebastião WanderleyEdna FrigatoMônicka ChristiAndrew AmaurickCharles CanelaMestre AriévlisRegina CuryNilton MendonçaMaria LuzFlávia AbibAimara SchindlerElias TorresAulos CarvalhoEvan Do CarmoNijair Araújo PintoNilo RibeiroGutto Carrer LimaJohnny De CarliMarco Antonio AlvarengaHorlando HaleRgiaJúnior LaudelinoPaulo UrsaiaRosicler CeschinZinah AlexandrinoMário FrancoDaniel MelgaçoHumberto QueirozFernanda Da SilvaDartagnan Da Silva ZanelaMarcelo VicoJoelson SouzaMalu SilvaJackson da MataAijalom WagnerHelenilson PersiEnéias Teles BorgesNelson MartinsRita MacedoIzzo RochaGuy BarretoCláudio SuenagaÉdio VargasGuilherme-Guilherme SilvaEnio StahlhoferYouchin L. SoaresAndreia CostaTainah FerreiraCésar RodriguesAilamara Cavalcante

Destaques do mês (Abril/2026)

Edson CruzBernardino BernardoFrank ChucaSão ChepadeAnderson (Anderson)Marcelo MonteiroLeonardo BarretoFrancisco Xavier BatistaMaria DelmondAlex FerrazRenato Lacerda IsquierdoCelso TenorioRafael SilvaAntonio Francisco Ferraz JúniorArides AlvesKarolyne Dos santosJorcelia ParizDaniel BuanaherMaria FerreiraMJ Massivi SuburbanoHiago Lopes araujoAna Sigrid

Frases dos usuários do KD Frases


Newton Jayme
A fumaça da tarde
mastiga os edifícios
e o céu pende torto
como um santo bêbado
dentro da moldura.

Teu silêncio
tem o barulho metálico
de elevadores vazios.

Andamos sobre avenidas úmidas
onde os postes derramam luz
feito leite estragado.

Não me pergunta nada.
As perguntas envelhecem primeiro.

No fundo dos bares
os homens alinham seus copos
como quem organiza
pequenos túmulos transparentes.

E eu —
funcionário do incêndio
invisível das horas —
medi minha vida
em colheres de café,
cinzas de cigarro
e recibos amassados no bolso do paletó.

Teu rosto passava nos vidros dos ônibus
misturado à chuva e anúncios de remédio;
parecia que a cidade inteira
tentava esquecer alguém.

Às vezes penso
que o amor é um relógio afogado:
continua funcionando
mesmo depois do naufrágio.

Os garçons recolhem a noite pelas mesas,
empilhando pratos
como luas quebradas.

E nós aqui,
dois animais educados pela fumaça,
fingindo elegância
enquanto o coração lateja
feito tubulação antiga atrás da parede.

Não me toca ainda.
A tristeza tem dentes pequenos
e mastiga devagar.

Lá fora,
o último bonde risca a madrugada
como uma navalha em fotografia antiga.

E amanhã
voltaremos às xícaras,
às gravatas,
às notícias mornas,
como quem retorna
ao próprio aquário incendiado.

Vamos então, tu e eu,
pois quando a tarde
se estende contra o céu
somos pacientes
anestesiados sobre uma mesa de bar,
como dois retratos amarelados pela solidão...

Então bebemos.
Porque há noites
em que amar alguém
é apenas dividir
o mesmo naufrágio
iluminado e mal terminado.