Coleção de Frases e Pensamentos de Newton Jayme


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Newton Jayme
TODO DIA VOCÊ

Há dias em que acordo feito estrada vazia,
Um lamento longo dentro do peito a me chamar.
Carrego nuvens no olhar, maresia,
E um silêncio difícil de atravessar.

Em outros, sou farol aceso ao vento,
Rasgando a noite sem pedir razão.
Mas mesmo no auge do meu firmamento,
Falta um nome pra caber na imensidão.

É quando o mundo perde o contorno,
E tudo insiste em não ficar…
A saudade traz teu nome
Como um jardim
que se recusa a morrer…

Há dias em que sou sol inteiro,
Em outros, tempestade sem aviso.
Às vezes, transbordo felicidade —
Mas é você quem nasce em mim todo dia.
É você quem rompe a madrugada fria,
E reacende o que eu não sei dizer…
Mesmo quando eu me perco de mim,
É você quem me encontra em você.

Já fui inverno em pleno verão,
Já me escondi de tudo que quis.
Mas quando teu riso invade a escuridão,
Até o caos aprende a ser feliz.

Se o tempo me dobra em incertezas,
E o medo me veste de solidão,
Teu amor é chama acesa na noite
Cortando a sombra da indecisão.

Há dias em que sou sol inteiro,
Em outros, tempestade sem aviso.
Às vezes, transbordo felicidade —
Mas é você quem nasce em mim todo dia.
É você quem rompe a madrugada fria,
E reacende o que eu não sei dizer…
Mesmo quando eu me perco de mim,
É você quem me encontra em você.

E se eu for noite sem estrelas no céu,
Se eu me esquecer de onde estou…
Seja o amanhecer que insiste em mim,
Como quem nunca se cansou de amar.

É no teu corpo que encontro o caminho,
Onde começa o nome do amor.

Newton Jayme
SOZINHO, MAS NÃO SOLITÁRIO

O sal do silêncio tempera meu dia
Na pele do vento, teu nome evapora
Um sol de dentro me guia e irradia
No azul que deságua do agora

Sozinho, mas não solitário
Sou rio sem pressa encontrando o mar
Teu rastro é um canto imaginário
Que o meu peito aprende a lembrar

Sozinho, mas não solitário
Teu cheiro mora no ar que eu respiro
É como um canto invisível e vário
Que me encontra mesmo quando eu me retiro

Sozinho, mas não solitário
Teu toque vive na luz do meu olhar
Sou ilha banhada de imaginário
Mas todo oceano insiste em te chamar

A luz do teu gesto ainda me atravessa
Feito um perfume que o tempo não quis
E a tarde se curva, dourada e dispersa
Na curva macia do que nunca fiz

Sozinho, mas não solitário
Há vida pulsando no que se perdeu
Um sopro morno, quase necessário
Que insiste em dizer que ficou no meu eu

E se o tempo desfaz o caminho
Eu refaço em mim tua direção
Num instante que foge sozinho
Mas se deita na palma da mão

Te procuro no vão do silêncio
Onde a ausência começa a florir
És presença em estado suspenso
Quase toque no ar a insistir

E eu, feito horizonte tardio
Me desfaço pra te revelar
No intervalo entre um som e outro
É que a gente aprende a ficar

Sozinho, mas não solitário
Teu cheiro mora no ar que eu respiro
É como um canto invisível e vário
Que me encontra mesmo quando eu me retiro

Sozinho, mas não solitário
Teu toque vive na luz do meu olhar
Sou ilha banhada de imaginário
Mas todo oceano insiste em te chamar

E quando a noite me veste de brisa
Te sinto em cada constelação
És chama tranquila que não cicatriza
Mas vira canção na minha mão

Sozinho, mas não solitário
Inteiro no eco do que não passou
Um corpo de sonho, leve e vário
Que em mim, de algum modo, ficou.

Newton Jayme
A manhã chegou com gosto de ferrugem
No fundo da copo que eu nem lavei
O tempo mastiga lento a minha coragem
E lança silêncio no que eu já sonhei

Tem boleto dançando sobre a mesa
Como se fosse um samba que eu não quis tocar
E o amor, esse bicho sem coleira,
Dormiu na varanda, não quis mais entrar

A cidade me veste com seus ruídos
Me empresta pressa, me cobra um papel
Eu caminho torto entre compromissos
E esqueço o nome daquilo que é fiel

Mas tem um resto de luz no meu peito
Que nem o cansaço consegue apagar
É tipo um sussurro no meio do caos
Me lembrando baixo: “vai passar, vai passar”

Quando o mundo pesa mais
que o meu ombro aguenta
E o espelho evita me encarar

Quem me consola é Deus
Na dobra invisível do dia comum
No grito calado que ninguém mais ouviu
Na lágrima seca que insiste em cair

Quem me consola é Deus
Quando o amor falha e o corpo desiste
É mão sem forma, mas firme em mim
É chão que surge onde não existe

Já bebi da fonte da esperança
E ela tinha gosto de ilusão quebrada
Já contei estrelas pra ver se esquecia
Que a vida cobra até pela madrugada

E o afeto às vezes vem com espinho
Abraça forte, mas deixa um sinal
Mesmo assim eu planto na desordem
Um jardim teimoso contra o temporal

Se eu me perco é porque ainda caminho
Se eu me calo é pra me escutar
Tem um Deus que escreve reto em desalinho
Mesmo quando eu só sei rabiscar

Quem me consola é Deus
No vão entre o sim e o que não aconteceu
No verso errado que insiste em viver
Na fé que dança sem me prometer

Quem me consola é Deus
Quando eu me acho pequeno demais
É voz sem som dizendo: “eu tô aqui”
E o vazio já não me desfaz

E se a vida é um samba sem ensaio
Eu canto assim, meio fora do tom
Porque no fundo, em cada desmaio
Tem um Deus me afinando por dentro do som

Newton Jayme
Quando a casa se enche de silêncio
E a solidão insiste em perguntar,
quando a tarde pousa sobre os retratos
como um pássaro cansado de voar,
eu não direi que tudo se perdeu,
nem que o amor desceu à escuridão.
Há ausências que continuam respirando
bem no centro do coração.

Se você chamar baixinho pelo meu nome,
eu estarei naquilo que ficou:
na janela aberta para a chuva,
no café, no livro, no cobertor.
Porque a morte não apaga o que é eterno,
não desmancha o que Deus semeou.
Ela é só uma porta entreaberta
por onde a saudade atravessou.

Não chore como quem perdeu o horizonte,
porque eu não caí da luz.
Estou do outro lado do caminho,
onde a noite já não me conduz.
E quando você sorrir de novo,
mesmo com o peito em cicatriz,
Deus vai juntar o que ficou distante
na eternidade que Ele quis.

Continue a rir das nossas histórias,
da canção que não chegou ao fim.
Guarde a vida como quem acende
uma vela contra o vento ruim.
Eu estarei nas mãos do Deus da vida,
que conhece o nome de cada dor,
e transforma despedidas impossíveis
em um reencontro sem temor.

Há um rio que separa os nossos passos,
mas não separa o amor.
Há um céu amadurecendo devagar
por detrás de cada flor.
E um dia, quando Deus abrir a porta
que hoje ninguém consegue ver,
você vai descobrir que eu só parti
um pouco antes de você.

Não chore como quem perdeu o horizonte,
porque eu não caí da luz.
Estou do outro lado do caminho,
onde a noite já não me conduz.
E quando você sorrir de novo,
mesmo com o peito em cicatriz,
Deus vai juntar o que ficou distante
na eternidade que Ele quis.

Eu não fui embora.
Só segui na frente,
pela estrada onde o amor
aprendeu a ser para sempre.

(Adaptação de Texto de Santo Agostinho)

Newton Jayme
DITADURA NUNCA MAIS

Vieram de madrugada,
sem tocar a campainha.
Trouxeram mapas,
listas,
medo em papel timbrado.
E chamaram de futuro
o barulho seco
que fizeram na porta.

Nas escolas, apagaram nomes.
Nos jornais, cortaram palavras.
Havia uma sombra sentada
em cada mesa de jantar,
e um país inteiro
aprendendo a falar baixo.

Quem discordava sumia.
Quem perguntava, apanhava.
Quem escrevia,
rasgava o próprio verso
antes que a noite chegasse.

Mas havia sempre alguém
guardando fósforos no bolso,
um estudante,
uma mãe,
um operário,
um padre,
uma mulher na janela
decorando rostos
para que ninguém fosse esquecido.

É preciso lembrar sempre,
para o escuro não voltar.
Toda vez que a farda manda,
a liberdade vai sangrar.
Quem faz do medo um governo
faz da pátria uma prisão.
Grava fundo, em cada peito:
ditadura nunca mais.

Não foi ordem.
Não foi paz.
Foi um país amordaçado
olhando o próprio retrato
sem conseguir se reconhecer.

Disseram: “era preciso”.
Mas também diziam isso
as grades,
os porões,
os passos na escada
às três da manhã.

E ainda há quem confunda
silêncio com harmonia,
quando o silêncio, às vezes,
é só o grito
sem lugar para nascer.

É preciso lembrar sempre,
para o escuro não voltar.
Toda vez que a farda manda,
a liberdade vai sangrar.
Quem faz do medo um governo
faz da pátria uma prisão.
Grava fundo, em cada peito:
ditadura nunca mais.

Se um dia outra vez vierem
embrulhados em bandeiras,
pedindo que a memória cale,
responde alto, nas ruas:
ninguém entrega o amanhã
para quem roubou a voz de ontem.

É preciso lembrar sempre...

Newton Jayme
Tua imagem entrou na casa
feito nardo rompendo o vidro;
não pediu licença ao mundo,
foi tomando os cantos,
os pergaminhos e papiros,
desatando as profecias.

Na madeira da mesa antiga,
na toalha, no pão, no vinho, na luz,
existia um rumor de despedida
caminhando nos pés de Jesus.

Maria desatou os cabelos
como quem liberta o último mar
e derramou sobre o silêncio
o que não cabia guardar.

Perfume não sabe voltar
quando encontra a pele do amor;
vira brisa no corpo da tarde,
vira ausência, presença e clamor.

E eu, que vivo medindo o universo,
vi teu gesto desmanchar a razão:
há verdades que custam a vida,
mas perfumam de vez a escuridão.

Judas Iscariotes
contava moedas no escuro,
pesava o céu nas linhas da mão;
mas o amor não conhece balança,
nem aprende a falar em cifrão.

Há um instante antes da perda
em que tudo começa a doer;
tu já enxergavas a noite chegando,
mas escolheste permanecer.

Teu perfume ficou pela casa,
pelos passos, na sala vazia,
como um sol derramado na sombra,
como um adeus acendendo o dia.

Perfume não sabe voltar...

E eu, que vivo medindo o universo,
vi teu gesto desmanchar a razão:
há verdades que custam a vida,
mas perfumam de vez a escuridão.

Tua imagem entrou
na casa, no meu ser,
feito nardo rompendo
o vidro e a alma;
não pediu licença ao mundo,
incendiou o ar,
foi tomando os cantos,
os pergaminhos e papiros,
desatando as profecias,
até tornar-se o centro do meu viver.

Somos, no mundo,
o perfume de Cristo,
testemunho do céu
na poeira do chão;
para uns,
aroma
de vida infinita:
salvação;
para outros,
espelho
da própria rejeição:
condenação.

Há verdades que custam a vida,
mas perfumam de vez a escuridão:
Jesus Cristo é o caminho, é a salvação!