Coleção de Frases e Pensamentos de Newton Jayme


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Newton Jayme
A fumaça da tarde
mastiga os edifícios
e o céu pende torto
como um santo bêbado
dentro da moldura.

Teu silêncio
tem o barulho metálico
de elevadores vazios.

Andamos sobre avenidas úmidas
onde os postes derramam luz
feito leite estragado.

Não me pergunta nada.
As perguntas envelhecem primeiro.

No fundo dos bares
os homens alinham seus copos
como quem organiza
pequenos túmulos transparentes.

E eu —
funcionário do incêndio
invisível das horas —
medi minha vida
em colheres de café,
cinzas de cigarro
e recibos amassados no bolso do paletó.

Teu rosto passava nos vidros dos ônibus
misturado à chuva e anúncios de remédio;
parecia que a cidade inteira
tentava esquecer alguém.

Às vezes penso
que o amor é um relógio afogado:
continua funcionando
mesmo depois do naufrágio.

Os garçons recolhem a noite pelas mesas,
empilhando pratos
como luas quebradas.

E nós aqui,
dois animais educados pela fumaça,
fingindo elegância
enquanto o coração lateja
feito tubulação antiga atrás da parede.

Não me toca ainda.
A tristeza tem dentes pequenos
e mastiga devagar.

Lá fora,
o último bonde risca a madrugada
como uma navalha em fotografia antiga.

E amanhã
voltaremos às xícaras,
às gravatas,
às notícias mornas,
como quem retorna
ao próprio aquário incendiado.

Vamos então, tu e eu,
pois quando a tarde
se estende contra o céu
somos pacientes
anestesiados sobre uma mesa de bar,
como dois retratos amarelados pela solidão...

Então bebemos.
Porque há noites
em que amar alguém
é apenas dividir
o mesmo naufrágio
iluminado e mal terminado.

Newton Jayme
ALMA DA ALMA

Se o mundo é pedra bruta em noite cega,
teu nome é faísca que a matéria nega;
um punhal de aurora rasga o infinito,
quando a carne aprende o idioma do rito.

Não és ideia — és febre que desata
as correntes do verbo na voz que me mata;
és maré que devora a costa do ser,
e ensina o vazio a também florescer.

No fundo do peito onde o tempo se encerra,
há um sino enterrado debaixo da terra;
e o amor — não palavra, mas incêndio em segredo —
acorda esse sino sem língua nem medo.

Se a alma é um navio sem porto nem chão,
tu és tempestade a rasgar-lhe a direção;
e ele aprende, ao ser partido em naufrágio,
que o abismo também pode ter miragem.

Não te nomeio com flores de vitrine,
nem verso que a doçura fácil determine;
te canto em aço, em vertigem e espinho,
em sangue que pensa e se faz caminho.

Porque amar não é calma, nem doce paisagem —
é faca que escreve na própria paisagem;
é quando o ser, em chama desobediente,
descobre que existe por ser continente.

E se a alma é só noite sem mão que a conduza,
o amor é a espada que a breu-absoluto traduz;
não para ferir — mas para abrir passagem
àquilo que dorme além da linguagem.

Assim te digo, sem véu e sem asa:
o amor é a alma que a própria alma arrasa;
e, ao arrasá-la, lhe dá nova altura —
como fogo que inventa a própria ventura.

E ao fim, quando a linguagem cai de joelhos,
e o mundo já não se sustenta em seus espelhos,
fica a verdade sem cortina, sem disfarce, sem trama:
o amor é a essência — não é o álcool da alma.

Newton Jayme
Newton Jayme

Membro desde: 12/03/2013

Frase do Dia

As ações são corretas na medida em que tendem a promover a felicidade, erradas na medida em que tendem a promover o reverso da felicidade.

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