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Newton Jayme
Coleção de Frases e Pensamentos de
Newton Jayme
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1.979 frases
“
ÀS MÃES
Ó mães! — estrelas trêmulas da terra,
Ânforas vivas de divina entrega e dor!
Quando passa a tormenta sobre os homens,
sois vós quem ficais, imóveis, no labor.
Há no vosso olhar qualquer coisa de abismo,
qualquer coisa de céu depois do mar;
como se Deus, cansado de infinito,
vos desse os filhos para descansar.
Vós tendes mãos de aurora e de batalha.
No vosso peito o mundo vai bater.
Se o século levanta as suas forcas,
sois vós que ensinais a renascer.
Mãe! — nome breve como um sino à tarde,
mas dentro dele dormem multidões:
o pão repartido entre a miséria,
o fogo aceso contra os vendavais,
e essa coragem muda, essa presença
que faz do pranto um campo de trigais.
Eu vos contemplo à luz das cozinhas pobres,
rainhas sem coroa e sem brasão,
curvadas sobre a roupa e sobre os sonhos,
lavando o medo do pequeno irmão.
Há epopeias no rumor das panelas,
há catedrais no barro de vossas mãos.
Oh! benditas sejais, mulheres insondáveis,
que atravessais a noite sem dormir,
guardando o sono frágil das crianças
como quem guarda um país por construir.
E quando o mundo — velho barco ébrio —
rompe os mastros na fúria dos trovões,
é vosso amor que fica iluminando
as ruínas, os portos, os clarões.
Porque mãe não é apenas quem gera:
é quem sustenta o sol dentro do peito
para que os filhos, mesmo em pleno inverno,
não desaprendam nunca o rumo e o leito.
Ó mães! — se existe um Deus acima das nuvens,
decerto aprende convosco a perdoar...
Pois só vós sabeis transformar a carne
na mais difícil forma de se domar e amar.
”
―
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“
O POÇO
As mulheres chegam
com latas, panos e cansaços,
deixando na borda
o peso inteiro da tarde.
Há uma tristeza mansa
morando naquele poço:
água parada
que conhece pelo nome
todas as secas.
Mas quando vieste,
meu amor,
até a lama brilhou.
Teus pés desceram o barranco
como quem entra
numa igreja antiga,
e tua voz tocou a superfície escura
como chuva inaugurando agosto.
Então compreendi:
há pessoas
que não matam a sede —
cavam.
E depois partem,
deixando dentro da gente
uma cacimba funda
onde a saudade
aprende a beber.
”
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“
Alimento a vida que respira,
como quem reconhece no pó
o destino do próprio corpo,
e ainda assim acende manhãs
com as mãos abertas ao tempo.
Há uma alma — silenciosa —
que aprende a respirar luz,
fazendo do amor sua fotossíntese:
transmuta a ausência em seiva
e o efêmero em raiz.
Bebo os dias devagar,
como quem prova o instante
antes que se desfaça,
e em cada gesto talho o invisível
no mármore bruto da existência.
Não para deter o fim —
que vem, paciente —
mas para que reste, no toque,
a curva de algo que viveu
como arte, antes de ser memória.
”
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Cada dia me forma
e me desfaz na mesma medida.
”
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“
Todo amanhecer me reorganiza;
todo anoitecer me diminui.
”
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“
Cada dia é mais um amanhecer que me constrói,
e menos um pôr do sol que me consome.
”
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O amor começa onde
o ego aprende a morrer.
”
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Quem se encontra com o amor
se divorcia das próprias ilusões.
”
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O amor não nos liberta de nós mesmos;
ao contrário, abre o caminho
para o nosso próprio encontro.
”
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O amor não é fuga de si, mas travessia —
e, ao fim dela, estamos nós.
”
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Amar não é buscar no outro
o que já habita em mim.
”
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O amor não nasce da falta,
mas daquilo que já vive em mim
e deseja ser partilhado.
”
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O espírito nutre-se do silêncio,
como a alma se alimenta de eternidade.
”
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Quem caminha em direção a Deus
transforma-se em luz que recria o mundo.
”
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Se o amor tivesse forma visível,
seria o contorno do teu existir:
um milagre cotidiano
que insiste em me reconstruir.
E eu te amo não como quem diz —
mas como quem respira sem perceber.
”
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“
Eu sou o mapa sem rota do meu próprio cais,
maré que me inventa antes de tocar ninguém,
sou o silêncio que aprende a dizer “tudo bem”
quando o peito é embarcação sem paz.
Carrego em mim um candeeiro sem idade,
luz que se acende sem pedir permissão,
e descubro que o outro é extensão
do que cultivo em minha intensidade.
Se eu me derramo em vidro quebrado e dor,
como ofereço água sem me ferir?
Se eu me perco antes de me construir,
que cuidado é esse que se chama amor?
Mas quando me rego em chão de presença,
quando me escuto sem me abandonar,
o mundo inteiro começa a caber
no gesto simples de olhar e se doar.
O próximo não nasce longe — é espelho em movimento,
é rio que aprende a ser ponte no próprio leito,
é atmosfera que só conhece o caminho direito
quando entende o próprio vento por dentro.
E eu descubro, sem pressa e sem dono:
amar o outro não é fuga de mim —
é quando eu me torno começo e fim
da mesma utopia que sonho e me torno.
E quando o deserto enfim me decanta inteiro,
descubro: o amor não me começa nem me termina —
ele me atravessa, me transforma, rio primeiro,
que só aprende o mar quando já é nascente e sina:
um lugar onde a existência vive tudo o que o tempo ensina.
”
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TODO DIA VOCÊ
Há dias em que acordo feito estrada vazia,
Um lamento longo dentro do peito a me chamar.
Carrego nuvens no olhar, maresia,
E um silêncio difícil de atravessar.
Em outros, sou farol aceso ao vento,
Rasgando a noite sem pedir razão.
Mas mesmo no auge do meu firmamento,
Falta um nome pra caber na imensidão.
É quando o mundo perde o contorno,
E tudo insiste em não ficar…
A saudade traz teu nome
Como um jardim
que se recusa a morrer…
Há dias em que sou sol inteiro,
Em outros, tempestade sem aviso.
Às vezes, transbordo felicidade —
Mas é você quem nasce em mim todo dia.
É você quem rompe a madrugada fria,
E reacende o que eu não sei dizer…
Mesmo quando eu me perco de mim,
É você quem me encontra em você.
Já fui inverno em pleno verão,
Já me escondi de tudo que quis.
Mas quando teu riso invade a escuridão,
Até o caos aprende a ser feliz.
Se o tempo me dobra em incertezas,
E o medo me veste de solidão,
Teu amor é chama acesa na noite
Cortando a sombra da indecisão.
Há dias em que sou sol inteiro,
Em outros, tempestade sem aviso.
Às vezes, transbordo felicidade —
Mas é você quem nasce em mim todo dia.
É você quem rompe a madrugada fria,
E reacende o que eu não sei dizer…
Mesmo quando eu me perco de mim,
É você quem me encontra em você.
E se eu for noite sem estrelas no céu,
Se eu me esquecer de onde estou…
Seja o amanhecer que insiste em mim,
Como quem nunca se cansou de amar.
É no teu corpo que encontro o caminho,
Onde começa o nome do amor.
”
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Meu silêncio não nasceu de repente,
foi se deitando aos poucos em mim,
como um céu que aprende o caminho da terra,
sem ferir nem mentir, mas também sem ceder.
Você falou — e as palavras vinham
com o peso leve das coisas que são:
ora tão rasas que nem molham a pele,
ora profundas demais pra alcançar com a mão.
Fiquei entre as margens de um rio,
sem pressa, sem riso, sem ponte,
ouvindo o que falta ao horizonte
no som da conversa.
Se nada me disse, foi vento sem nome,
passando por dentro sem me atravessar;
mas, se disse tudo, foi queda d’água,
tão clara que eu tive medo de olhar
e de me molhar.
Porque há verdades que pedem silêncio,
como a noite pede pra não ser tocada;
existem frases que chegam tão inteiras
que a voz se perde antes da estrada.
E eu, que sempre fui feito de versos,
me vi sem retorno, sem tradução:
um desejo suspenso no meio do peito,
esperando um corpo pra ser canção.
Então calei — não por ausência,
nem por excesso que não sei conter,
mas porque, às vezes, o que é mais inteiro
só cabe no espaço de não dizer ou reter.
E, se um dia você estranhar minha calma,
não pense que o mundo deixou de existir:
é só que, por dentro, tudo é tão vasto
que qualquer palavra seria diminuir.
”
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DOÇURA DE MOENDA
Inspiração: Dom Helder Câmara
No dorso da tarde cansada,
o vento aprende a chorar;
carrega folhas rasgadas
de quem não quis se curvar.
E eu vi, na curva do mundo,
um coração sem lugar,
batendo em silêncio profundo,
sem nunca deixar de amar.
Há criaturas como a cana:
mesmo postas na moenda,
esmagadas de todo,
reduzidas a bagaço,
só sabem doar doçura.
Só sabem…
só sabem se doar.
Doçura no corte mais frio,
no gesto que fere sem ver,
no escuro do desafio,
ainda insistem em ser.
Como um rio que sangra claro,
por entre as pedras do não,
transforma o peso mais raro
em leveza de louvação.
Há criaturas como a cana:
mesmo postas na moenda,
esmagadas de todo,
reduzidas a bagaço,
só sabem doar doçura.
E quando o mundo desaba
em foices pelo chão,
há quem se faça palavra
pra adoçar a solidão.
Existe quem, no fim do caminho,
ainda estenda a mão,
feito um milagre baixinho
de açúcar no coração.
Só sabem…
só sabem doar doçura.
Há que endurecer,
mas sem deixar
a ternura ir embora,
porque é ela que faz
o amor nascer — sem demora.
Existe quem, no fim do caminho,
ainda estenda a mão,
feito um milagre baixinho
de açúcar no coração.
Só sabem…
só sabem doar doçura.
”
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Eu tentei te guardar
num canto de silêncio,
como quem fecha
uma porta sem ruído;
mas você ficou no movimento
da minha respiração,
feito luz que não sabe
ser desligada ou esquecida.
Meu corpo aprendeu teu nome
em linguagem de brisa,
e agora qualquer esquina
me soletra você,
como se o mundo fosse
um mapa mal resolvido
que insiste em me levar
pro mesmo lugar.
Eu falo que sigo,
mas desminto os meus caminhos.
Meus pés têm memória própria
e te desenham no chão
antes de eu decidir o próximo passo.
Teu rastro não é ausência —
é gravidade:
me puxa sem tocar,
me dobra sem pedir licença;
e eu, feito estrela cansada,
giro em torno de um sol
que já não me aquece inteiro.
Se eu fujo,
você me inventa destino;
se eu paro,
você vira lembrança que delira.
Sou barco que aprende
teu cais na maré
e esquece o porto
que jurou ser abrigo.
Te busco até quando
não te procuro,
porque você mora
no intervalo do meu andar,
onde o amor não acaba —
só muda de forma
e me atravessa
sem nunca ir embora.
Eu quis te esquecer
na disciplina dos dias,
mas a saudade
tem mãos invisíveis
e reescreve teu rosto
nas horas vazias,
como quem insiste
numa verdade sem nome.
E se um dia
eu enfim me calar de você,
vai ser só pra ouvir melhor
o barulho que você faz dentro de mim,
quando o mundo fica quieto demais.
”
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Num sereno aposento do peito,
onde o silêncio aprende a falar,
ser sozinho é um desencontro
de quem se perdeu sem notar.
É como um copo esquecido
à beira da mesa, ao sol forte,
transparente de tão vazio,
sem sede, sem rumo, sem norte.
Mas quando o afeto acontece,
feito chuva em telhado antigo,
cada gota reconhece
seu destino de abrigo.
E amar não é repartir
como pão em mesa alheia,
é crescer por dentro, unir
o que em nós ainda anseia,
silêncios mal resolvidos,
ausências sem direção—
amar é somar sentidos
até dar corpo ao coração.
Dois não são dois quando escutam
o intervalo do partilhar,
são margem e rio que lutam
pra no encontro se alargar.
E assim, sem jamais ausentar,
cada um inteiro dentro de si,
amar é também pertencer
e no outro ainda existir.
”
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“
Na sombra leve do último suspiro,
caminham vozes que o tempo não levou,
não são corpos — são ideias vivas,
são pensamentos que a morte não calou.
Sócrates diz baixinho ao ouvido:
“morrer é só continuar…”
E no silêncio do desconhecido,
a alma aprende a dialogar.
Platão sonha um outro horizonte,
feito de forma, verdade e luz,
onde o eterno se faz presente
e o ser, enfim, se conduz.
Epicuro ri do medo escondido:
“não há dor no não sentir”
Se a morte chega, já partimos —
se estamos, ela há de fugir.
E entre murmúrios e ressonâncias,
a vida insiste em cantar,
se a morte é só uma passagem,
pra onde o amor vai nos levar?
Entre o fim e o recomeço,
há um sopro de imensidão,
talvez morrer seja um verso
inacabado na canção.
Martin Heidegger olha o tempo nos olhos,
carrega o fim no coração,
é na certeza da despedida
que nasce a decisão.
Friedrich Nietzsche encara o abismo ardente,
faz da dor criação,
reinventa o próprio destino
como um eterno refrão.
E quando tudo silencia,
quando o medo já não diz,
surge uma voz que anuncia
algo além do que se quis…
Jesus Cristo vem como luz na noite:
“a vida nunca se desfaz,
quem crê não morre — renasce,
no amor que é sempre mais.”
E entre murmúrios e ressonâncias,
a eternidade vem falar,
se a morte é só uma travessia,
há um infinito a nos chamar.
Entre o fim e o recomeço,
Deus escreve sem cessar —
e o último acorde da vida
é o primeiro a despertar.
”
―
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SOZINHO, MAS NÃO SOLITÁRIO
O sal do silêncio tempera meu dia
Na pele do vento, teu nome evapora
Um sol de dentro me guia e irradia
No azul que deságua do agora
Sozinho, mas não solitário
Sou rio sem pressa encontrando o mar
Teu rastro é um canto imaginário
Que o meu peito aprende a lembrar
Sozinho, mas não solitário
Teu cheiro mora no ar que eu respiro
É como um canto invisível e vário
Que me encontra mesmo quando eu me retiro
Sozinho, mas não solitário
Teu toque vive na luz do meu olhar
Sou ilha banhada de imaginário
Mas todo oceano insiste em te chamar
A luz do teu gesto ainda me atravessa
Feito um perfume que o tempo não quis
E a tarde se curva, dourada e dispersa
Na curva macia do que nunca fiz
Sozinho, mas não solitário
Há vida pulsando no que se perdeu
Um sopro morno, quase necessário
Que insiste em dizer que ficou no meu eu
E se o tempo desfaz o caminho
Eu refaço em mim tua direção
Num instante que foge sozinho
Mas se deita na palma da mão
Te procuro no vão do silêncio
Onde a ausência começa a florir
És presença em estado suspenso
Quase toque no ar a insistir
E eu, feito horizonte tardio
Me desfaço pra te revelar
No intervalo entre um som e outro
É que a gente aprende a ficar
Sozinho, mas não solitário
Teu cheiro mora no ar que eu respiro
É como um canto invisível e vário
Que me encontra mesmo quando eu me retiro
Sozinho, mas não solitário
Teu toque vive na luz do meu olhar
Sou ilha banhada de imaginário
Mas todo oceano insiste em te chamar
E quando a noite me veste de brisa
Te sinto em cada constelação
És chama tranquila que não cicatriza
Mas vira canção na minha mão
Sozinho, mas não solitário
Inteiro no eco do que não passou
Um corpo de sonho, leve e vário
Que em mim, de algum modo, ficou.
”
―
Newton Jayme
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A manhã chegou com gosto de ferrugem
No fundo da copo que eu nem lavei
O tempo mastiga lento a minha coragem
E lança silêncio no que eu já sonhei
Tem boleto dançando sobre a mesa
Como se fosse um samba que eu não quis tocar
E o amor, esse bicho sem coleira,
Dormiu na varanda, não quis mais entrar
A cidade me veste com seus ruídos
Me empresta pressa, me cobra um papel
Eu caminho torto entre compromissos
E esqueço o nome daquilo que é fiel
Mas tem um resto de luz no meu peito
Que nem o cansaço consegue apagar
É tipo um sussurro no meio do caos
Me lembrando baixo: “vai passar, vai passar”
Quando o mundo pesa mais
que o meu ombro aguenta
E o espelho evita me encarar
Quem me consola é Deus
Na dobra invisível do dia comum
No grito calado que ninguém mais ouviu
Na lágrima seca que insiste em cair
Quem me consola é Deus
Quando o amor falha e o corpo desiste
É mão sem forma, mas firme em mim
É chão que surge onde não existe
Já bebi da fonte da esperança
E ela tinha gosto de ilusão quebrada
Já contei estrelas pra ver se esquecia
Que a vida cobra até pela madrugada
E o afeto às vezes vem com espinho
Abraça forte, mas deixa um sinal
Mesmo assim eu planto na desordem
Um jardim teimoso contra o temporal
Se eu me perco é porque ainda caminho
Se eu me calo é pra me escutar
Tem um Deus que escreve reto em desalinho
Mesmo quando eu só sei rabiscar
Quem me consola é Deus
No vão entre o sim e o que não aconteceu
No verso errado que insiste em viver
Na fé que dança sem me prometer
Quem me consola é Deus
Quando eu me acho pequeno demais
É voz sem som dizendo: “eu tô aqui”
E o vazio já não me desfaz
E se a vida é um samba sem ensaio
Eu canto assim, meio fora do tom
Porque no fundo, em cada desmaio
Tem um Deus me afinando por dentro do som
”
―
Newton Jayme
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“
Quando a casa se enche de silêncio
E a solidão insiste em perguntar,
quando a tarde pousa sobre os retratos
como um pássaro cansado de voar,
eu não direi que tudo se perdeu,
nem que o amor desceu à escuridão.
Há ausências que continuam respirando
bem no centro do coração.
Se você chamar baixinho pelo meu nome,
eu estarei naquilo que ficou:
na janela aberta para a chuva,
no café, no livro, no cobertor.
Porque a morte não apaga o que é eterno,
não desmancha o que Deus semeou.
Ela é só uma porta entreaberta
por onde a saudade atravessou.
Não chore como quem perdeu o horizonte,
porque eu não caí da luz.
Estou do outro lado do caminho,
onde a noite já não me conduz.
E quando você sorrir de novo,
mesmo com o peito em cicatriz,
Deus vai juntar o que ficou distante
na eternidade que Ele quis.
Continue a rir das nossas histórias,
da canção que não chegou ao fim.
Guarde a vida como quem acende
uma vela contra o vento ruim.
Eu estarei nas mãos do Deus da vida,
que conhece o nome de cada dor,
e transforma despedidas impossíveis
em um reencontro sem temor.
Há um rio que separa os nossos passos,
mas não separa o amor.
Há um céu amadurecendo devagar
por detrás de cada flor.
E um dia, quando Deus abrir a porta
que hoje ninguém consegue ver,
você vai descobrir que eu só parti
um pouco antes de você.
Não chore como quem perdeu o horizonte,
porque eu não caí da luz.
Estou do outro lado do caminho,
onde a noite já não me conduz.
E quando você sorrir de novo,
mesmo com o peito em cicatriz,
Deus vai juntar o que ficou distante
na eternidade que Ele quis.
Eu não fui embora.
Só segui na frente,
pela estrada onde o amor
aprendeu a ser para sempre.
(Adaptação de Texto de Santo Agostinho)
”
―
Newton Jayme
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Newton Jayme
Membro desde:
12/03/2013
Frase do Dia
“
Música é vida interior, e quem tem vida interior jamais padecerá de solidão.
”
—
Artur da Távola
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