Coleção de Frases e Pensamentos de Newton Jayme


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Newton Jayme
Dizem que é coisa do tempo,
que o velho mundo ainda manda,
que a casa é reino de sombra
onde a mulher se desanda.
Mas eu vi que não é destino,
nem sentença de calendário:
é patriarcado nos cantos,
é medo dentro do armário.

E quando o radicalismo
bate à porta em nome de um deus,
não traz bênção nem cuidado —
traz corrente nos dedos seus.
Assim se ergue a violência,
assim o grito se cala;
mas a dor que tenta esconder-se
acende centelha na sala.

É por isso que, amiga minha,
se tua mão treme no meio,
não se cala por vergonha,
não se dobra por receio.
Quebra o silêncio comigo,
me mostra o que te machuca —
que a gente atravessa a rua,
vai no posto, pede ajuda.

Levo caderno e coragem,
registro a história inteira;
na delegacia da vida
ninguém vai te pôr na esteira.
Fazemos o boletim firme,
com teu nome respirando;
pedimos medida preventiva
pra manter o lobo afastado.

E se o mundo vem dizer
que é exagero o teu choro,
eu te ensino a desenhar
um futuro que pede socorro.
Porque educar é desarmar
essa herança de ferro e muro;
é cultivar meninas livres,
é redimir o próprio futuro.

E quando a noite parecer
tramar contra tua aurora,
eu toco a canção do Chico,
baixinha, na tua porta:
— “Vai, menina, abre o peito,
que a vida pede coragem”;
o amor que não dói nem prende
é o único que faz viagem.

Então seguimos na luta,
tu, eu e quem mais chegar:
tecendo redes de afeto
que o medo não pode cortar.
E se a cidade te esquece,
nós te lembramos inteira;
és mulher, és voz que nasce
como sol na ribanceira.

Assim, amiga, te prometo:
não caminhas desvalida.
Onde houver violência e trevas,
seremos farol e saída.
Porque o amanhã — essa palavra
que insiste em se levantar —
é flor que brota no gesto
de quem aprende a cuidar.

Newton Jayme
A mesa posta em cada era se levanta,
como tribuna erguida sobre o tempo,
e nela o amor — esse réu inocente —
é novamente repartido
entre mãos que tremem,
entre povos que esperam,
entre lábios que beijam,
entre corpos que guardam sementes.

Outrora barro nos dedos dos primeiros,
fez-se trigo no cântico dos altares,
vinho que incendia o medo dos tiranos,
sal que queima a chaga dos impérios.
Assim marchou, transfigurado,
pelas veias ardentes das nações.

Ergueram-se muralhas, coroas, decretos;
teceram-se penas e véus de fumaça
sobre almas e janelas fatigadas;
e as leis, jurando guardar as promessas,
não guardaram nem ao menos
o nome dos que as pronunciaram.

Mas sempre há um gesto que escapa,
faísca clandestina na noite das eras,
uma migalha que desmente os arquivos,
um sopro que afronta a lógica dos poderosos
e fermenta a revolução, a luta e o impossível
como se fosse simples nascente.

O amor então se transmuta:
ora raio que atravessa ruínas,
ora sombra que vela o último pássaro,
ora palavra que abre ferrolhos
na garganta de um tirano
e devolve o fôlego à cidade.

E quando as civilizações ruem
como colunas fatigadas,
ele ressurge — tímido, teimoso —
na voz exilada que não esquece o caminho,
no pão escondido na bolsa do viajante,
no vinho furtivo no canto da criança,
milagre pequeno em gesto ameno
que o escriba do reino não registra.

Talvez assim sobreviva o amor:
transubstanciado em tudo o que sobra,
no pó que brilha,
no gesto anônimo que sustém auroras,
no lume que insiste em reavivar
o mapa incerto do amanhã —
íntegro, insurgente,
sempre a se reinventar e partilhar.

Newton Jayme
Newton Jayme

Membro desde: 12/03/2013

Frase do Dia

As ações são corretas na medida em que tendem a promover a felicidade, erradas na medida em que tendem a promover o reverso da felicidade.

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