Frases de Memória (adicionadas pelos usuários)


Marcelo Monteiro
O SILÊNCIO QUE VIGIA.
O teu silêncio não se limita a calar. Ele age. Instala-se como uma presença meticulosa destinada unicamente ao meu coração. Não vem para ensinar nem para esclarecer. Vem para despertar antigos medos que eu julgava sepultados. Ele percorre minhas veias com a frieza de uma água que não purifica. Apenas paralisa. Congela lentamente cada parte de mim até que o gesto mais simples se torne impossível e eu me descubra imóvel dentro de uma armadilha sem grades visíveis.
Esse silêncio não grita. Mas ressoa. E o que ressoa não é som. É pressão. É o peso de tudo o que não foi dito escorrendo para dentro da consciência. Quando transborda pelos olhos já não é choro. É rito. Cada lágrima amplia um rio íntimo onde a memória se afoga. Um Estige particular que me conduz não à morte do corpo mas à suspensão da esperança.
No íntimo da psique ele não se anuncia como violência aberta. Chega como frio constante. Um frio que rouba do corpo a coragem do movimento e da mente a ilusão de defesa. Tento compreender. Construo explicações. Mas o silêncio não dialoga. Ele observa. Espera. E nessa espera molda o medo até que o medo se torne morada permanente.
O castigo não está em sofrer. Está em saber que tudo poderia ter sido diferente por uma única conversa. Porque o que sempre desejei não foi vencer nem acusar. Foi falar. Falar para libertar. Falar para romper o feitiço da mudez que transforma o amor em sepulcro. E então compreendo. O silêncio não aprisiona quem se cala. Aprisiona quem espera. E é nessa espera que a alma aprende tarde demais que a misericórdia recusada pesa mais do que qualquer palavra dita.

Newton Jayme
Tempo, mestre estranho e severo,
Ensinas, mas desfiguras o meu ser.
Trazes o canto,
Mas a voz se perde em vão;
Dás-me o desejo, mas temo,
Pois o epílogo é o fim do coração.

Fazes-me vigoroso
Pela manhã e ao meio-dia,
Mas à tarde, à noite,
Me arrastas, sem alegria.

Recebes-me na infância,
Viva e bela,
Mas devolves-me,
Na velhice, uma janela
De memórias trincadas,
Quebrada de dor.
E, no desfecho da festa,
Meu corpo é só temor.

Caminho por um beco
Onde a luz se esvai,
O ar me falta,
O tempo cresce,
E o que atrai?

Em cada passo,
Mais forte
É o meu lamento,
Pois o tempo, cruel,
Não cede um momento.

Tempo, não quero
Ser teu fiel discípulo,
Não sou teu prisioneiro,
Nem teu cúmplice.
Corres para
O meu ocaso,
Não há redenção,
Não és amigo,
És só quimera e solidão.
Temperas a saudade
Com dor sem calma,
Fazendo-me perder
Até a própria alma.

És caminho sem retorno,
Cruel ostentação,
Um suborno sem término,
Sem sonhos e libertação.
Não tenho a mágica porção,
Não sei como vencer,
Sou só aprendiz,
A sofrer e a guardar lições.
Busco a mim mesmo,
Mas, em meu olhar,
Há só incertezas
Sobre o que é o meu desatar,
Meu destino, meu futuro lugar!

Não quero o sono
Que me arrasta e fere,
Quero o despertar,
A vida que me incendeia,
Quero a chama
Que na alma me devora
Sem me consumir,
Quero a arte de amar,
Com amor que nunca tarde.

Não desejo a apoteose
Que me traz o abismo;
Busco o contínuo despertar,
O eterno criar, o otimismo.
Quero viver, enquanto
O tempo me for dado,
Porque, a cada instante,
Sou por ele
Devorado e vencido,
Mas jamais me dou
Totalmente por derrotado.
Sou determinação –
Incansável prodígio!