Frase de Newton Jayme
 | “ A fumaça da tarde mastiga os edifícios e o céu pende torto como um santo bêbado dentro da moldura. Teu silêncio tem o barulho metálico de elevadores vazios. Andamos sobre avenidas úmidas onde os postes derramam luz feito leite estragado. Não me pergunta nada. As perguntas envelhecem primeiro. No fundo dos bares os homens alinham seus copos como quem organiza pequenos túmulos transparentes. E eu — funcionário do incêndio invisível das horas — medi minha vida em colheres de café, cinzas de cigarro e recibos amassados no bolso do paletó. Teu rosto passava nos vidros dos ônibus misturado à chuva e anúncios de remédio; parecia que a cidade inteira tentava esquecer alguém. Às vezes penso que o amor é um relógio afogado: continua funcionando mesmo depois do naufrágio. Os garçons recolhem a noite pelas mesas, empilhando pratos como luas quebradas. E nós aqui, dois animais educados pela fumaça, fingindo elegância enquanto o coração lateja feito tubulação antiga atrás da parede. Não me toca ainda. A tristeza tem dentes pequenos e mastiga devagar. Lá fora, o último bonde risca a madrugada como uma navalha em fotografia antiga. E amanhã voltaremos às xícaras, às gravatas, às notícias mornas, como quem retorna ao próprio aquário incendiado. Vamos então, tu e eu, pois quando a tarde se estende contra o céu somos pacientes anestesiados sobre uma mesa de bar, como dois retratos amarelados pela solidão... Então bebemos. Porque há noites em que amar alguém é apenas dividir o mesmo naufrágio iluminado e mal terminado.” |
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