Frase de Newton Jayme

Frase adicionada por Newton-Jayme em 28/05/2026

Newton Jayme
A fumaça da tarde
mastiga os edifícios
e o céu pende torto
como um santo bêbado
dentro da moldura.

Teu silêncio
tem o barulho metálico
de elevadores vazios.

Andamos sobre avenidas úmidas
onde os postes derramam luz
feito leite estragado.

Não me pergunta nada.
As perguntas envelhecem primeiro.

No fundo dos bares
os homens alinham seus copos
como quem organiza
pequenos túmulos transparentes.

E eu —
funcionário do incêndio
invisível das horas —
medi minha vida
em colheres de café,
cinzas de cigarro
e recibos amassados no bolso do paletó.

Teu rosto passava nos vidros dos ônibus
misturado à chuva e anúncios de remédio;
parecia que a cidade inteira
tentava esquecer alguém.

Às vezes penso
que o amor é um relógio afogado:
continua funcionando
mesmo depois do naufrágio.

Os garçons recolhem a noite pelas mesas,
empilhando pratos
como luas quebradas.

E nós aqui,
dois animais educados pela fumaça,
fingindo elegância
enquanto o coração lateja
feito tubulação antiga atrás da parede.

Não me toca ainda.
A tristeza tem dentes pequenos
e mastiga devagar.

Lá fora,
o último bonde risca a madrugada
como uma navalha em fotografia antiga.

E amanhã
voltaremos às xícaras,
às gravatas,
às notícias mornas,
como quem retorna
ao próprio aquário incendiado.

Vamos então, tu e eu,
pois quando a tarde
se estende contra o céu
somos pacientes
anestesiados sobre uma mesa de bar,
como dois retratos amarelados pela solidão...

Então bebemos.
Porque há noites
em que amar alguém
é apenas dividir
o mesmo naufrágio
iluminado e mal terminado.


Imagem da Frase:



A fumaça da tarde 
mastiga os edifícios
e o céu pende torto
como um santo bêbado 
dentro da moldura.

Teu silêncio
tem o barulho metálico
de elevadores vazios.

Andamos sobre avenidas úmidas
onde os postes derramam luz
feito leite estragado.

Não me pergunta nada.
As perguntas envelhecem primeiro.

No fundo dos bares
os homens alinham seus copos
como quem organiza 
pequenos túmulos transparentes.

E eu —
funcionário do incêndio 
invisível das horas —
medi minha vida
em colheres de café,
cinzas de cigarro
e recibos amassados no bolso do paletó.

Teu rosto passava nos vidros dos ônibus
misturado à chuva e anúncios de remédio;
parecia que a cidade inteira
tentava esquecer alguém.

Às vezes penso
que o amor é um relógio afogado:
continua funcionando
mesmo depois do naufrágio.

Os garçons recolhem a noite pelas mesas,
empilhando pratos
como luas quebradas.

E nós aqui,
dois animais educados pela fumaça,
fingindo elegância
enquanto o coração lateja
feito tubulação antiga atrás da parede.

Não me toca ainda.
A tristeza tem dentes pequenos
e mastiga devagar.

Lá fora,
o último bonde risca a madrugada
como uma navalha em fotografia antiga.

E amanhã
voltaremos às xícaras,
às gravatas,
às notícias mornas,
como quem retorna
ao próprio aquário incendiado.

Vamos então, tu e eu,
pois quando a tarde
se estende contra o céu
somos pacientes
anestesiados sobre uma mesa de bar,
como dois retratos amarelados pela solidão...

Então bebemos.
Porque há noites
em que amar alguém
é apenas dividir
o mesmo naufrágio 
iluminado e mal terminado. (Newton Jayme)
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