Frase de Newton Jayme

Frase adicionada por Newton-Jayme em 18/05/2026


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A FLOR E O ABISMO

Na mão, eu trouxe a flor das madrugadas,
A flor febril dos pálidos vergéis;
Trazia o sangue rúbeo das romãs
E o incêndio triste dos ocasos fiéis.

Era a tua cor! — A mesma, a mesma
Que eu via arder nos céus do teu olhar,
Quando tua alma, em cânticos submersa,
Fazia a noite inteira soluçar.

Abriam-se os balcões da ventania...
Dormia a lua em túnicas de gás...
E eu caminhava — espectro da saudade —
Levando o coração como um rapaz
Leva aos altares a primeira espada
Antes da guerra lhe rasgar a paz.

Ó minha amada! Quantos cemitérios
Cabem na sombra de uma despedida?
Quantas auroras morrem silenciosas
No breve espaço de uma mão perdida?

Teu nome, outrora, era um sino de ouro
Banhando a tarde em vibrações de mel;
Hoje é apenas ave ensanguentada
Batendo as asas pelas grades do céu.

Eu te encontrei.
Teu rosto era mais pálido que a névoa
Que sobe aos montes quando o inverno vem.
Havia em teus cabelos a tristeza
Das catedrais que não recebem ninguém.

Então calei.
Porque há dores que possuem templos
Onde a palavra humana não entrou.
E a própria lágrima, cansada e fria,
Ajoelha-se aos pés de quem amou.

Deixei a flor sobre a madeira escura.
Tu não sorriste.
Mas teus dedos lentos
Tocaram suas pétalas cansadas
Como quem toca ruínas e fragmentos.

Depois parti.
A noite abriu as asas sobre a rua;
Os lampiões tremiam de terror...
E eu fui sozinho, carregando o destino
Como um navio afunda o próprio amor. (Newton Jayme)
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