Frase de Newton Jayme
 | “ Hoje o mar acordou de mau humor, servindo frio na xícara do tempo de agora. O sol faltou ao turno de calor, perdi meu amor, e o Corcovado, tímido, se escondeu na hora. Uma névoa ensaia teu nome nas varandas de Copacabana — sopro curto de sal e costume, dessas saudades que a maré engana. A cidade, viúva do Carnaval, espreguiça confete na avenida; recolhe no bolso banal os sonhos gastos da vida. Nos bares lavados da manhã, cadeiras murmuram ressaca. Meu silêncio senta na mesa com tua falta, que não se disfarça. Caminho rente à beira da areia como quem procura um sinal — mas o vento do sul soletra teu nome num alfabeto de sal, tão anormal. E o meu ser, barco cansado, range no cais da lembrança; maré que não chega a porto nem desaprende a esperança. Volta — que o mar já gastou suas lágrimas na pedra antiga do cais; volta — que a cidade inteira parece prender o fôlego atrás. Volta — que o sol anda ensaiando nascer no riso moreno que és. Porque amar, veja bem, é teimosia de rio: mesmo quando a noite fecha a passagem, ele inventa outro desvio. Hoje o mar acordou onda fria, mas guardo um resto de verso. Se teu passo cruzar esta rua vazia, talvez o verão atravesse o inverno. E eu que jurava que o tempo ensinava o esquecimento, aprendo nas calçadas do Rio que esquecer também é um tormento. Nos jornais da manhã não sai notícia da minha solidão; mas teu corpo ainda embarca e desembarca na estação do meu coração. Se a vida é viagem sem mapa nem porto, por que teu adeus me deixou quase morto? Se um dia voltares na brisa do mar, talvez meu destino reaprenda a amar. Volta — que o mar já cansou de chorar, e a cidade parece esperar. Volta — que o sol quer nascer outra vez no teu riso moreno que tu és.” |
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