Frase de Newton Jayme “
A saudade rega flores no jardim das ausências, mas não com mangueira nem com lágrimas cenográficas. É no copo esquecido na pia, na toalha que ainda guarda o vinco da sua mão, que a água acontece. A nostalgia passa pela casa como quem não quer atrapalhar os santos. Abre a janela só um pouco, o bastante para o cheiro do dia entrar e lembrar que o mundo segue em idades sucessivas — criança, jovem, adulto, idoso — sem pedir licença. A ausência não dói o tempo todo. Às vezes, ela apenas senta. Puxa uma cadeira, cruza as pernas, fica ali enquanto a gente descasca recordações ou dobra a roupa ainda morna. É nesses momentos que algo floresce — não bonito, não eterno, mas teimoso. As flores desse jardim não servem para buquê. Nascem tortas, entre rachaduras, e exigem cuidado miúdo: um pensamento breve, um nome dito em voz baixa, um riso que escapa sem culpa. Saudade não é falta. É excesso de realidade num lugar onde já houve corpo. E cada instante sabe: viver é aprender a regar o que não volta, confiando que Deus, com seu jeito doméstico, gosta dessas flores imperfeitas. ”
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