Frases de Memória (adicionadas pelos usuários)


Maria Luz
Tenho saudades do meu corpo físico... Saudades dos meus braços fortes, que abarcavam tanto ao mesmo tempo, e ainda tinham força para virar a casa ao contrário, pegar no meu filho, cuidar dele e ainda brincar sem parar, sabendo que mais tinha para fazer com eles pela frente... Nunca se sentiam cansados, ou doridos... Assim era também com as minhas pernas, esticavam-se até sem medo e chegávamos rápido aos destino, podia dar passadas largas, e meus pés acompanhavam-nas com gosto, sem dor, sem ardência, sem ossos distorcidos e fosse o calçado que eu usasse não fazia diferença alguma... Antes a minha memória era de elefante, como se costumava dizer, hoje já não é assim... Hoje, esqueço com facilidade as coisas, o que leio nos livros, tendo que voltar a reler uma , duas vezes para algo assimilar , escrever num papel algo que vou precisar de fazer , puxar pela memória quando me quero lembrar bem de um lugar, para o passar para a tela, ouvir a música uma vez e outra, para me melhor lembrar quem a canta e qual foi o ano de lançamento... Talvez sejam coisas fúteis para alguns, mas para mim não, porque si como era e agora tenho tantas saudades , da memória fotográfica que tinha, e do que povoava o meu no cérebro tanto por dentro como por fora.
Sinto tantas, e tantas saudades daquela rapariga de outrora em relação á que sou agora... Sinto uma fúria tão grande, que até me dá uma fadiga intensa e que acaba por me deitar abaixo, tirando-me as forças, deixando-me abatida... Afundada em mim!

Carlos Vieira de Castro
O HOMEM DE RUA E O MANEQUIM…
(Ou como o sonho bem sonhado e sentido se pode tornar realidade)
Mal as luzes da cidade se iam incandescendo e a noite caindo a pique na cidade indiferente e fria; passavam gentes e arrumavam-se dele como se ali estivesse um cão sarnoso ou uma mortífera cobra cascavel, prontos a contaminá-los ou a mordê-los.
O certo, é que quase sempre e impreterivelmente àquela mesmíssima hora, ele lá vinha em pose teimosa e ar saudoso e pesaroso e quando chegava frente à montra, transfigurava-se e vestia um olhar de meiguice. Ele, mesmo, naquele pobre corpo sujo que pedia alimento e rejeitava sofrimento.
Adotava então uma posição de adoração, amorosa mesmo, e dialogava para o manequim vestido de noiva reluzente e este, Deus meu! respondia-lhe com meiguice.
Era o bastante para lhe acudir à memória já sem estória, o dia do seu casamento, a noiva de véu e grinalda e ele de fato de corte e estilo inglês, pose de cavalheiro cortês.
Lembrava também com amargura e muita revolta os empurrões e puxões para onde a vida falsa o catapultara: o desemprego sem receber um prego; o álcool que o abraçou; a família que o ignorou; a solidão e a rebeldia com que então ele casou.
Tudo isto e mais e mais ele continuava a contar com uma quase loucura à sua amiga manequim, confidente e nunca indiferente, apesar da sua indesmentível beleza e cabelos falsos, da cor do ouro pintados.
E não é, senhores, que de súbito ela desce do baixo pedestal em que a colocaram; abandonou a montra onde a postaram; vem cá fora ao passeio da rua a cheirar à trampa de muita gente; de muitas solas de sapatos que calcaram dejetos; dá o braço torneado, bonito, ao sem-abrigo, e lá seguem os dois, lado a lado, sorridentes, apaixonados e mesmo enlaçados.
Caminharam os dois, passeio adiante, pela cidade cada vez mais fria e menos sem gentes.
Foram, foram, até a um infinito da cidade e jamais os enxergaram de vista, até hoje…