Frase de Newton Jayme “
MOINHO SEM VENTO O difícil é ser moinho quando o vento vai embora, feito amigo de caminho que promete e não demora. Fica a porta entreaberta, fica a mesa por limpar, uma ausência tão concreta que não cansa de ficar. Já não gira a velha roda, já não geme o mesmo som, e esse mundo que me roda já não roda em tom nenhum. Há um rangido no peito que ninguém vem consertar, é defeito ou é direito de quem fica a esperar? Mas persiste, ainda em pé, feito quem não se desfaz, porque o vento, quando vier, há de achar o que ficou pra trás. Fico em pé, mesmo sem vez, mesmo quando o céu desmente, que o moinho é mais que a vez de girar conforme o vento. Tem quem viva de rajada, tem quem viva de ilusão, eu me guardo na parada como quem guarda o pão. Porque o tempo, esse fingido, dá voltas sem avisar, e o que hoje é esquecido amanhã vem procurar. Se vier de mansinho, eu nem digo nada, finjo até que não vi, faço pouco da estrada que cansou de fugir de mim. Mas se venta de novo, eu me invento outra vez, dou motivo ao meu povo, dou razão ao talvez. Ah, mas eu não me desfaço assim, sou teimoso por natureza, mesmo em falta de um fim, faço fé na incerteza. Fico em pé, mesmo sem som, mesmo quando o mundo mente, que o moinho só é bom quando gira com o vento. Sim, persiste, ainda em pé, feito quem não se desfaz, porque o vento, quando vier, há de achar o que ficou pra trás. ”
Imagem da Frase:
Mais frases de Newton Jayme
Newton Jayme