Frase de Newton Jayme “
O barco range como quem reza com o corpo. A madeira conhece o medo antes da boca aprender o nome dele. A água sobe sem pedir licença, e eu penso: é assim que a morte entra, discreta, pelos pés. Ele dorme. Não o sono heroico dos santos de vitral, mas o cansaço comum de quem passou o dia tocando feridas e acreditando nas pessoas. Dormir também é uma forma de fé, aprendo tarde. Nós gritamos. Sempre gritamos quando Deus parece distraído. Nosso amor é barulhento, nossa confiança, pequena como um copo rachado. “Não te importas?” A pergunta pesa mais que a água no barco. Ele se levanta. Não há pressa, porque quem cria o mundo não corre atrás do caos. A voz é curta, quase doméstica: Silêncio. E o vento obedece como um filho repreendido por quem ama. Depois, o olhar. Esse sim, atravessa. Por que tanto medo? Não é bronca. É espanto. Como quem diz: ainda não me conheces? O mar se cala, mas dentro de nós a tempestade aprende a ficar sentada. O medo muda de nome: vira assombro. Quem é este que descansa no fundo do barco enquanto tudo ameaça acabar? Descubro: não é o mar que precisa cessar, sou eu. Minha pressa, meu cálculo, meu desejo de um Deus sempre acordado para servir meus sustos. A fé não apaga o perigo, mas acende uma luz estranha no meio dele. Não impede o vento, mas me impede de fugir. E sigo, com água nos pés e um Deus dormindo por perto, aprendendo que confiar é continuar remando mesmo quando o coração ainda treme. O medo é só um estremecimento da alma onde a fé aprende a respirar. ”
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