Frases de Memória (adicionadas pelos usuários)


Marcelo Monteiro
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Sinopse.
Não Há Arco-íris no Meu Porão é uma travessia literária pelas profundezas da memória, da ausência e daquilo que permanece vivo quando todas as palavras se esgotam. Em uma atmosfera onírica e profundamente simbólica, Joseph Beauvoir percorre corredores invisíveis onde a lógica cede lugar à contemplação, enquanto Camille Monfort surge como uma presença impossível de ser definida: mulher, lembrança, metáfora e silêncio ao mesmo tempo.
Ao longo da narrativa, o leitor é conduzido por diálogos filosóficos e psicológicos que dissolvem as fronteiras entre realidade e imaginação. O porão transforma-se no território íntimo da alma; os lírios, as cores desbotadas e os misteriosos amendoins de Camille deixam de ser simples imagens para revelar uma linguagem simbólica sobre o amor, a perda, a infância, a permanência e a beleza que resiste ao esquecimento.
Mais do que um romance, esta obra propõe uma experiência contemplativa. Cada capítulo convida o leitor a percorrer o próprio interior, descobrindo que os maiores mistérios não habitam o mundo exterior, mas os lugares silenciosos da consciência.
Com uma escrita poética, filosófica e profundamente imersiva, Marcelo Caetano Monteiro constrói uma narrativa em que cada página é um convite à reflexão sobre a condição humana, mostrando que, mesmo onde não há arco-íris, ainda podem existir sementes de esperança, memórias que florescem e uma beleza invisível reservada apenas aos que têm coragem de descer ao próprio porão.
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Carlos Vieira de Castro
O HOMEM DE RUA E O MANEQUIM…
(Ou como o sonho bem sonhado e sentido se pode tornar realidade)
Mal as luzes da cidade se iam incandescendo e a noite caindo a pique na cidade indiferente e fria; passavam gentes e arrumavam-se dele como se ali estivesse um cão sarnoso ou uma mortífera cobra cascavel, prontos a contaminá-los ou a mordê-los.
O certo, é que quase sempre e impreterivelmente àquela mesmíssima hora, ele lá vinha em pose teimosa e ar saudoso e pesaroso e quando chegava frente à montra, transfigurava-se e vestia um olhar de meiguice. Ele, mesmo, naquele pobre corpo sujo que pedia alimento e rejeitava sofrimento.
Adotava então uma posição de adoração, amorosa mesmo, e dialogava para o manequim vestido de noiva reluzente e este, Deus meu! respondia-lhe com meiguice.
Era o bastante para lhe acudir à memória já sem estória, o dia do seu casamento, a noiva de véu e grinalda e ele de fato de corte e estilo inglês, pose de cavalheiro cortês.
Lembrava também com amargura e muita revolta os empurrões e puxões para onde a vida falsa o catapultara: o desemprego sem receber um prego; o álcool que o abraçou; a família que o ignorou; a solidão e a rebeldia com que então ele casou.
Tudo isto e mais e mais ele continuava a contar com uma quase loucura à sua amiga manequim, confidente e nunca indiferente, apesar da sua indesmentível beleza e cabelos falsos, da cor do ouro pintados.
E não é, senhores, que de súbito ela desce do baixo pedestal em que a colocaram; abandonou a montra onde a postaram; vem cá fora ao passeio da rua a cheirar à trampa de muita gente; de muitas solas de sapatos que calcaram dejetos; dá o braço torneado, bonito, ao sem-abrigo, e lá seguem os dois, lado a lado, sorridentes, apaixonados e mesmo enlaçados.
Caminharam os dois, passeio adiante, pela cidade cada vez mais fria e menos sem gentes.
Foram, foram, até a um infinito da cidade e jamais os enxergaram de vista, até hoje…