Frase de Alessandro Teodoro
 | “ Às vezes, a Justiça resolve dar o ar da graça no Brasil só para o povo insistir em acreditar que ela ainda existe. E, quando isso acontece, vira quase um evento. Um alívio coletivo, uma fagulha de esperança em meio a um cotidiano marcado por descrédito, morosidade e seletividade. A sensação é de que algo finalmente funcionou — não como exceção deveria ser, mas como regra que raramente se cumpre. O problema é que a Justiça não deveria surpreender. Não deveria soar como milagre, nem como concessão ocasional de um sistema que parece escolher quando agir e, principalmente, contra quem agir. Quando o básico vira motivo de espanto, é sinal de que o alicerce já não sustenta com a firmeza que deveria. Essa aparição esporádica da Justiça cumpre um papel curioso: alimenta a esperança ao mesmo tempo em que mascara a falha estrutural. Porque basta um caso emblemático, uma decisão firme, para reacender no imaginário coletivo a crença de que “agora vai”. Mas o “agora” quase nunca se sustenta no depois. E assim o povo segue — oscilando entre o fio da navalha da descrença e da necessidade de acreditar. Porque desacreditar completamente é admitir um vazio perigoso demais. A fé na Justiça, ainda que ferida, funciona como último fio que impede a normalização total do absurdo. No fundo, não é que a Justiça não exista… É que, muitas vezes, ela parece muito distante, intermitente — quase como uma visita muito mal-educada, daquelas que chega sem aviso, resolve algo muito pontual e vai embora antes de explicar por que demorou tanto. E enquanto ela aparece apenas “às vezes”, o que se consolida no restante do tempo não é a ordem, mas a dúvida. E um país que duvida constantemente da sua própria Justiça — aprende, aos poucos, a conviver com aquilo que jamais deveria aceitar.” ― Alessandro Teodoro |
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